Alguns esportes fazem vista grossa
Pouco mais da metade da vida do fisiculturista Rogério Cremildo foi dentro de uma academia.
A paixão pelo esporte do corpo perfeito, no entanto, tomou-lhe de assalto três anos antes de integrar o grupo do professor Carmelo de Castro, ex-mister Brasil. Aleatoriamente, em casa, praticava musculação com halteres amadores. Hoje, aos 27 anos, é demasiadamente forte, mas garante ser “tudo natural”. E confessa que os campeonatos estão abarrotados de competidores que tomam hormônios. “Isso irrita, mas não podemos fazer nada.” Assim como no fisiculturismo, outras modalidades têm nessas substâncias o seu esteio.Desde os Jogos de Pequim, o Comitê Olímpico Internacional (COI) sugeriu às suas filiadas que se associassem à Wada, sigla inglesa para Agência Mundial Antidoping, mas alguns esportes não aceitaram a “dica” do COI. As entidades de beisebol e futebol americano são exemplos de rebeldes. Os próprios ciclistas – modalidade que está inscrita na agência –, em 2006, fizeram protestos para proibir o exame antidoping na Volta da França do mesmo ano.
“Em todos os esportes é permitida a dosagem máxima de testosterona, que é produzida naturalmente pelo corpo humano”, diz o professor e escritor Azenildo Santos. A relação de testosterona/epitestosterona no corpo deve ser de 4/1. Se passar disso, o comitê investiga se a substância foi fabricada pelo corpo ou injetada. Normalmente, a taxa do ser humano é de 1/1. “Se passar disso, já gera a dúvida”, comenta.
A disseminação dos esteroides no esporte também é encorajada pelos cronogramas de coleta. “Ter os testes só nos campeonatos é fazer vista grossa. Ninguém usa anabolizante uma semana antes de competir. E sim seis, oito meses antes. Até o dia das disputas, a substância já não deve mais ser apontada no teste. Além disso, só temos dois laboratórios aptos para fazer a análise.”
Em 2008, a Wada investiu pouco mais de R$ 12 milhões com o financiamento de 20 centros de pesquisa, hoje responsáveis pela elaboração de técnicas para a descoberta de um tipo de doping potente e camuflado: o genético. A substância da moda é a eritropoietina (EPO), estimulante de glóbulos vermelhos e manipulada geneticamente. “É um supercarregador de oxigênio”, analisa Azenildo. “De Atenas (Olimpíadas de 2004) para cá, a maioria dos atletas apanhados tinha a substância EPO no sangue. O doping genético é uma realidade”, diz. Em alguns casos, um vírus é injetado com o intuito de simular sinais que obriguem o corpo a produzir hormônios. “Para evitar a proliferação é que a Wada está gastando milhões e milhões de dólares. Está cada vez mais difícil descobrir os atletas usuários de anabolizantes”, completa.
